domingo, 31 de dezembro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 10 - Guichês

Guichê em Bruxelas.
Foto: F Cardigos

Desde tempos remotos que houve necessidade de estabelecer o modo, os locais e o tempo em que os cidadãos comunicavam com a administração. Não sou historiador nem tenho ambições de sistematizar uma viagem neste relacionamento ao longo dos tempos, mas imagino que seja um tema interessante. Apenas me irei deter no meu tempo de vida, portanto, poucos anos mais uns poucos...
Antigamente, qualquer funcionário de repartição pública, banco, correios, estações de autocarros e comboios comunicava com o cidadão comum através de guichês. O guichê é uma estrutura que separa duas divisões em que, de um lado, se encontra o território do funcionário e, do outro, o território do atendido. Os guichês mais assustadores são compostos por um balcão alto e, na parte superior desse balcão, um vidro mais ou menos espesso que protege o funcionário da pessoa que esteja a ser atendida. Os guichês mais avançados têm sistemas de comunicação através de microfone e altifalante e os eventuais documentos são trocados através de bandejas rastejantes. As vantagens dos guichês incluem a proteção física do funcionário contra doenças ou reações menos apropriadas do atendido.
Em Portugal, desde o 25 de Abril, os guichês têm vindo a desaparecer gradualmente, em particular, no espaço da administração pública. Em seu lugar têm aparecido secretárias em que de um lado se senta o funcionário e, do outro, se senta a pessoa que está a ser atendida. Seja nas câmaras municipais ou nas repartições de finanças, no Portugal de hoje os guichês estão em extinção. Na minha opinião, é um bom avanço que contribui para melhorar as relações entre a administração e os cidadãos, tornando-as mais humanas.
Veio-me tudo isto à memória por, num curto período de tempo, ter sido confrontado com dois guichês aqui em Bruxelas. Primeiro no Parlamento Europeu, em que trocaram um simpático e conveniente balcão por um guichê dos mais assustadores e avançados. Os funcionários do Parlamento Europeu que estão encarregues das acreditações dos visitantes estão agora escondidos atrás de um vidro tão espesso que apenas os podemos entender se o sistema de comunicação electrónico estiver em funcionamento. Como os vidros são ligeiramente escurecidos, às vezes pergunto-me se haverá seres humanos do lado de lá… Razões de segurança não parecem justificar todo este aparato, já que apenas podemos chegar a estes guichês depois de termos passado dois níveis de segurança.
Já depois de ter deixado de trabalhar no Parlamento Europeu tive de regularizar a minha situação na Commune (similar à nossa Junta de Freguesia, mas com mais competências). Fiquei espantado por, também aqui, haver guichês.
Há anos que, em Portugal, os guichês foram sendo substituídos por móveis modernos e acolhedores, que convidam quem tem um problema a sentar-se e a comunicar civilizadamente com funcionários que, sem receio, recebem com conforto e solicitude. Há sítios de contacto rápido, como os correios, em que ainda há balcões, mas na maioria dos departamentos administrativos, já se entra, senta-se e fica-se à vontade. Em muitos locais ainda se espera de pé e por tempos não admissíveis, o que é um contrassenso e uma oportunidade de melhoria para os serviços públicos em Portugal, mas, quando finalmente iniciamos a conversa com o funcionário, sentimo-nos bem.
Como um número crescente de operações burocráticas comuns já podem ser realizadas usando a internet, se uma pessoa tem de se deslocar às finanças ou à Câmara Municipal é porque o caso é grave, complicado ou a pessoa em causa tem dificuldades em lidar com as novas tecnologias. Também por estas razões, há que receber bem, com conforto e dignidade. Faz todo o sentido.

As estações de transportes públicos (comboio, metro e autocarro) e alguns serviços nocturnos de elevado risco, como as farmácias e as bombas de gasolina durante a noite, ainda têm guichês, mas pouco mais. Os guichês são “animais” em extinção em Portugal. Neste campo, a Bélgica ainda tem um caminho a percorrer para mais humanizar as relações entre a administração e os cidadãos. 

domingo, 17 de dezembro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 9 - Museus

Bonecos em tamanho real no museu das figuras de banda desenhada.
Foto: F Cardigos

Como já relatei anteriormente, há uma intensa aposta dos Belgas na cultura. Desde a educação de cada jovem até à disponibilização da arte, material ou imaterial, a cada cidadão, um pouco de tudo é proposto para que se possa usufruir de muitos dos pequenos e grandes prazeres que este mundo nos pode proporcionar.
Poder-se-ia pensar, como de resto eu pensava, que o investimento do Estado Belga na arte estaria essencialmente relacionado com a tentativa de incutir um sentido de pátria aos habitantes de um dos recentes países Europeus (relembro que a Bélgica tem pouco mais de 170 anos), mas isso seria uma simplificação exagerada da realidade. Depois de ter visitado muitos museus de Bruxelas e arredores, e apesar de ninguém me ter dito, penso que a tentativa de transmitir este sentimento patriota passa pela partilha das diferentes expressões artísticas deste povo, mas, ao mesmo tempo, por dois outros níveis estratégicos.
Passo a explicar. A Bélgica é um país constituído por quatro comunidades culturalmente diferentes. Há uma comunidade flamenga a Norte, uma comunidade francófona a Sul, uma pequena comunidade germanófila a Leste e uma comunidade que mistura as duas primeiras na cidade de Bruxelas (localizada no centro do país). Para ser totalmente claro, e como um à parte, há que dizer que esta comunidade da cidade capital é ainda mais complexa já que agrega dezenas de milhares de funcionários das instituições europeias, da sede mundial da NATO e de organizações de pressão e representação que são oriundas de todos os cantos do mundo. Não esquecendo ainda uma grande percentagem de população imigrante. Enfim… é complicado... Terminado o à parte, refiro que um dos objectivos do investimento em arte poderá ser estender o conhecimento, a compreensão e a valorização do que se faz em cada uma das comunidades às restantes. Faz sentido.
Passemos a outro dos níveis estratégicos. Os museus Belgas, faça-se a respectiva vénia, concentram e expõem arte de todo o mundo. Este povo aprecia verdadeiramente o multiculturalismo. Tendo isto em consideração, imagino que, por exemplo, ao passearem-se pelo museu dos instrumentos musicais e ao ver e ao ouvir peças dos quatro cantos do nosso planeta, os cidadãos belgas se sintam orgulhosos do espólio que angariaram. A Bélgica teve a vontade e teve a capacidade de agregar exemplos do que de bom se faz no mundo e isso é, na minha opinião, um factor de orgulho e de integração nacional. A seguir à educação escolar, os museus são a ferramenta que, pelas razões apontadas atrás, mais ajudam a enaltecer o orgulho patriótico, naquilo que este conceito tem de bom.
Há muitas dezenas de museus na cidade de Bruxelas. Os temas são mesmo muito variados e incluem, entre muitos outros, a pintura, a banda desenhada, os antigos territórios Belgas, o chocolate, a guerra, os automóveis, a história, a geografia, as instituições europeias, a antropologia, a cerveja, a história natural e mesmo um dos grandes vultos musicais da Bélgica, Jacques Brel. Sinto-me repentinamente invadido por um “ne me quittes pas”… Passando à frente de mais um à parte e continuando, os museus estão bem organizados e, na sua maioria, fazem parte de uma rede a que nos podemos associar obtendo facilidades de visita e informações variadas. Como ponto negativo,, senti já um excessivo zelo pelo respeito do horário de encerramento para lá do que seria razoável. A certo passo, bem cedo, os funcionários começam a “torcer o nariz” relembrando activamente e sonoramente qual a hora de encerramento. É um mal menor. Um dos pontos altos é a possibilidade de fotografar (desde que não se use flash) todos os museus. Neste momento, tenho milhares de fotografias de muitos museus da Bélgica e que apenas quando me reformar poderei organizar devidamente.

Se mais nada houvesse para fazer, os museus de Bruxelas poderiam ocupar um visitante durante longas semanas. No entanto, sinto que um possível propósito da existência de fabuloso e dispendioso espólio é ajudar a manter unido um país ainda jovem. É um objectivo nobre até porque a Bélgica é um país de gente boa e que ajuda a construir um mundo melhor. Espero que assim continue.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Crónicas de Bruxelas: 8 - Trânsito

Aspecto do trânsito na cidade de Bruxelas.
Foto: F Cardigos

Os belgas, dizem-me, são muito dedicados à família e às actividades realizadas em conjunto dentro do seio familiar. Entre as actividades privilegiadas contam-se a realização de diversos desportos, o usufruto da natureza, as prolongadas refeições que contam diversos pratos intermediados por longas conversas, a prática religiosa (católica) e a bricolage. Interessa-me aqui particularmente a bricolage porque, segundo a minha teoria, não comprovada, este interesse tem uma ligação directa com grande parte da realidade belga, incluindo o trânsito.
Bruxelas é uma cidade extraordinária, como tenho vindo a relatar nestas crónicas. Há inúmeros pontos fortes e, como não poderia deixar de ser, debilidades. O trânsito é, sem sombra de dúvida, um dos factores que mais ensombra a vida em Bruxelas e com consequências tremendas. O tráfego é de tal forma intenso que resulta em níveis de poluição que já valeram à cidade admoestações por parte da Comissão Europeia. Sim, não é apenas Portugal que recebe reprimendas da Comissão Europeia, as razões é que são diferentes… Os níveis de poluição são tão severos que nos andares mais baixos do edifício em que trabalho é proibido abrir as janelas durante a tarde, para evitar as consequências nocivas para a saúde dos trabalhadores. Por sorte, eu trabalho “num modesto primeiro andar a contar vindo do céu”, para citar uma conhecida música portuguesa.
O trânsito nas horas de ponta é infernal e, não compreendo porquê, não há acções consequentes por parte do município que alterem este estado de coisas. Os transportes públicos são muito razoáveis e circulam dentro do horário estabelecido. Quer dizer… os motoristas de autocarro não têm qualquer noção das distâncias necessárias para acelerar ou travar, o que resulta em alguns dissabores, mas nada de muito grave.
Voltando à linha de raciocínio.
As permanentes obras contribuem para o caos automobilístico. Desde prédios totalmente funcionais que são destruídos e reconstruídos no mesmo local e com a mesma tipologia, a rearranjos de arruamentos, obras e obretas, sem qualquer nexo aparente, até a obras de manutenção realmente essenciais, tudo polvilha a cidade de Bruxelas de tapumes, guindastes e obriga a restrições e reorientações do tráfego. Penso eu, esta tendência dos belgas de transformar o ambiente construído que os rodeia é a extensão para o nível do Estado do seu gosto pela bricolage. Da pequena obra na cozinha e a jardinagem de final de semana passamos à detonação de prédios e tudo lhes parece natural... Não é!
Se os transportes públicos são muito razoáveis e o trânsito é um pequeno inferno, o que falta para as pessoas abandonarem os seus veículos privados em casa e passarem para os transportes públicos? O que falta para que os carros que têm realmente que circular o possam fazer de forma fluída? Penso que apenas se resolverá este problema com o regrar destas obras que emprestam a cada dia uma novidade que afunila e atrasa a circulação e exaspera cada condutor. Ao mesmo tempo, terão de realizar-se acções fortes que limitem o número de viaturas, especialmente nos dias em que a meteorologia favorece a concentração de poluentes, tal como acontece em diversas cidades da vizinha França e da distante China, apenas para dar dois exemplos. Quando isso acontecer, a maioria dos cidadãos da cidade de Bruxelas irá finalmente conhecer os seus transportes públicos e ficará alegremente surpreendida.

Entretanto, diz-me um colega, “tive de mudar de casa!”. O médico disse-lhe que os níveis de poluição no seu bairro central não são compatíveis com a fragilidade da sua saúde pulmonar. Por esta e por outras razões, entre as quais o terem espaço para as suas actividades de bricolage, muitos belgas moram já fora da cidade de Bruxelas, o que contribui ainda mais para o trânsito infernal quando diariamente se deslocam para os seus empregos. Conclusão, ou se faz alguma coisa rapidamente em relação ao trânsito em Bruxelas ou pode correr muito mal…