domingo, 22 de abril de 2018

Crónicas de Bruxelas: 18 - Gabinete dos Açores em Bruxelas


Aspecto estilizado de um dos espaços do Gabinete dos Açores em Bruxelas
Por F. Cardigos

Desde meio de outubro de 2017 que a cidade de Bruxelas tem uma “ilha” do arquipélago dos Açores. O arquipélago é agora promovido, defendido e representado não apenas pelo trabalho dos deputados Europeus, não apenas por parte da representação permanente de Portugal junto das instituições europeias e não apenas pela força e empenho das dezenas de açorianos que aqui vivem e trabalham. Desde meio de outubro que está em plena atividade o Gabinete dos Açores em Bruxelas.
Assente em termos legais numa Estrutura de Missão para a sua instalação, o Gabinete dos Açores tem orientado a sua atuação segundo diversos vetores. Primeiro, houve que dar visibilidade ao Gabinete dos Açores em Bruxelas e demonstrar competência. Apenas desta forma poderemos ser respeitados, ser tomados em consideração e ter o privilégio de acompanhar com detalhe o desenvolvimento dos processos legislativos que nos são particularmente úteis. Para isso, o Gabinete tem mantido reuniões com os interlocutores considerados chave no que diz respeito às suas prioridades de atuação, tem participado nos eventos mais significativos e dinamiza uma conta no Twitter (@AzoresEUoffice), visto ser este um importante meio de divulgação usado pelas instituições europeias. Um dos indicadores de sucesso neste campo é o convite para participar em alguns grupos de trabalho. Isso já aconteceu na área da energia, da investigação científica marinha, das pescas e da mineração.
O segundo vetor consiste em facilitar a estadia dos açorianos que se encontram ocasionalmente em Bruxelas. Para isso, o Gabinete mantém dois espaços de trabalho e uma sala de reuniões numa zona central de Bruxelas, mais especificamente, na Rotunda de Schuman. Estes espaços do Gabinete estão localizados a 3 minutos a pé dos edifícios principais da Comissão Europeia, entre os quais o Berlaymont, a 5 minutos dos edifícios principais do Conselho (Justus Lipsius e Europa) e a 15 minutos da sede em Bruxelas do Parlamento Europeu. Das imediações do Gabinete há comboios e autocarros diretos de e para o Aeroporto Nacional de Bruxelas.
Os espaços do Gabinete podem ser usados por todos os açorianos que se encontrem em trabalho em Bruxelas desde que solicitado com antecedência e desde que, obviamente, não tenha havido outros agendamentos anteriores. Já decorreram diversos tipos de reuniões, essencialmente de entidades públicas, e algumas visitas exploratórias. Para todos, a prioridade do Gabinete é facilitar ao máximo a permanência em Bruxelas e ajudar a maximizar o impacto da deslocação ao centro da Europa. Adicionalmente, quando solicitado, o próprio Gabinete agenda reuniões e acompanha os trabalhos externos dos visitantes oriundos dos Açores. Este acompanhamento inclui, sempre que necessário, a interpretação linguística e o auxílio temático.
O terceiro vetor relaciona-se com a transmissão de informação sobre o que se passa em Bruxelas para os Açores. Isso é realizado essencialmente a dois níveis. Por um lado, a informação quotidiana é remetida para o Governo dos Açores sobre os diferentes temas prioritários (política de coesão, agricultura, pescas, mar, ciência, ambiente, turismo e energia) e outros. Em paralelo, semanalmente, é composto um Boletim Informativo (Az@Brx) que tenta sintetizar os diferentes temas discutidos ou apresentados em Bruxelas e que podem ter interesse para os Açorianos. Este boletim é hoje enviado para centenas de endereços de correio eletrónico por solicitação prévia.
No último vetor, mas não o menos importante, há a chamada representação a pedido. No caso de alguma entidade açoriana necessitar de ter representação em Bruxelas, mas não tiver possibilidade de se deslocar, o Gabinete dos Açores pode desempenhar essa tarefa. Desta forma, o Gabinete tem representado essencialmente entidades públicas, defendendo as linhas indicadas previamente e fazendo posteriormente a síntese dos temas discutidos nas diferentes reuniões.
O trabalho do Gabinete de representação dos Açores em Bruxelas está ainda no início. No entanto, há já alguns resultados interessantes e que são promissores para o futuro que aí vem.

domingo, 8 de abril de 2018

Crónicas de Bruxelas 17 - Estou a perder “amigos” no Facebook!



Ao abrir o Facebook reparei que o meu número de “amigos” se tinha reduzido. Não que viva obcecado com o número de conhecidos que tenho a mim ligados através da maior rede social do planeta, mas acontece que estou muito perto de um número redondo o que torna este decréscimo evidente… E, portanto, tal como a população do Corvo que, diz-se, nunca passou das mil almas, o meu número redondo insiste em não ser ultrapassado e, para mais, passou agora a decrescer.
Se fosse mais distraído, poderia ficar surpreendido. Não é o caso. O mau uso dos dados dos utilizadores perpetrado pelo Facebook, ilustrado pelo escândalo Cambridge Analytica, está a fazer com que muitos utilizadores adiram ao movimento #DeleteFacebook e desliguem as suas contas. Simpaticamente, alguns destes aderentes têm enviado mensagens de despedida. Esta postura demonstra que há mesmo quem saia e, visto que sobrevivem, demonstra também que há vida para lá do Facebook…
Tentativas de manipulação de consciência não são de agora. Sempre as houve. Por motivos políticos, de soberania, religiosos, profissionais ou comerciais ou fruto de amores e de paixões, a todo o momento houve pessoas interessadas em manipular outras pessoas. Seja mais ou menos conscientemente, desde que há palavras para serem ditas, qualquer orador tem como fito informar, sensibilizar e, em muitos casos, manipular quem o está a ouvir. Ao longo dos tempos e fruto do avanço tecnológico, a transmissão da mensagem tornou-se mais complexa passando da simples palavra para os sinais de fumo, para a argila, para a pedra, depois para o papiro, papel, telégrafo, rádio, televisão e, agora, internet. Não há grandes diferenças em relação ao passado. O que muda é a rapidez, a eficiência e a abrangência.
Não há ninguém no planeta Terra minimamente informado que não saiba que o negócio essencial das redes sociais é vender direta ou indiretamente a nossa informação pessoal. De forma mais ou menos estruturada, com maior ou menor detalhe, tanto o Google, o Facebook, como o Twitter e outros analisam os nossos perfis e, cirurgicamente, colocam anúncios “interessantes” no nosso campo visual enquanto utilizamos as suas plataformas ou aplicações informáticas associadas.
O que se passou neste caso é que a informação detalhada de 50 milhões de pessoas foi exportada para terceiros, a empresa Cambridge Analytica, e estes puderam orientar publicidade enganosa que sensibilizasse o perfil sociológico ou psicológico de cada pessoa em particular. Aparentemente, algumas eleições e referendos foram mesmo condicionados com este procedimento.
Não haja dúvida que o comportamento de Facebook foi, no mínimo, irresponsável e não haja dúvida que, de acordo com o que tem sido veiculado pela comunicação social, o comportamento de Cambridge Analytica é criminoso, mas nós pusemo-nos a jeito. Ou seja, ao partilhar informação privada nas redes sociais e sabendo que o negócio destas empresas é precisamente vender publicidade orientada para o nosso perfil, estivemos e estamos a expor-nos e a aceitar sermos orientados, inconscientemente, para decisões que não queremos necessariamente tomar. O pequeno-grande passo que esta associação entre o Facebook e a Cambridge Analytica deu foi de usarem informação privada para, com base em notícias falsas ou exageradas, condicionarem a capacidade de decisão individual em momentos tão importantes como as eleições ou os referendos.
Agora, estando o problema identificado, resta às autoridades judiciais fazerem o seu trabalho. Para mim, a tarefa é estar ainda mais atento e ter, como dizia Sérgio Godinho sobre o Casimiro, “cuidado com as imitações…”.

domingo, 25 de março de 2018

Crónicas de Bruxelas: 16 - Partir!



Comboio miniatura em loja na Suiça.
Foto: F. Cardigos

Era novo, muito novo, portanto já passaram alguns anos…, quando ouvi falar pela primeira vez no interrail. Então, por 23 contos (115 euros), os jovens podiam viajar durante um mês por toda a Europa de comboio sem pagar qualquer valor adicional. Alguns dos mais empreendedores juntavam dinheiro religiosamente durante todo o período escolar para que, durante o Verão, pudessem usufruir do interrail. Numas cidades acampavam, noutras dormiam em casa de amigos ou familiares, comiam mal, a higiene pessoal durante aquele mês era reduzida ao mínimo admissível, conheciam dezenas de pessoas, eram confrontados com outras culturas e formas de ser e, essencialmente, tinham as maiores aventuras das suas vidas.
No meu caso, para além de ter viajado por parte da Europa ocidental, tive a sorte de viver a minha juventude no mais populoso concelho do país (Lisboa) e passar férias no menos populoso (ilha do Corvo).  Acreditem que uma das memórias que ainda hoje guardo com maior ternura é a de chegar a Lisboa e ter os meus amigos a mostrarem-me as músicas de um grupo novo, chamado Dire Straits. O grupo tinha publicado um álbum chamado “Brothers in Arms” e, através dele, os meus amigos tinham tomado conhecimento de um outro disco, mais antigo, com um concerto ao vivo chamado “Alchemy”. Isolado no Corvo por três meses, com uma televisão errática e a rádio resumida à Antena 1, eu não fazia ideia... Obviamente, no Corvo sabíamos das grandes mudanças, até porque recebíamos os jornais e a Antena 1 sempre teve um serviço noticioso exemplar, mas faltavam-nos os pequenos detalhes, as pequenas mudanças, a roupa que se tinha passado a usar, as pequenas alterações nos hábitos…
No outro sentido, quando chegava ao Corvo, depois de nove meses no Continente, via os meus amigos mais crescidos, as consequências negativas do Inverno e as obras que, entretanto, tinham sido feitas… Lembro-me como desfazia a minha mala rapidamente, metia os calções de banho e corria pelo Porto da Casa, varadouro abaixo, e só parava depois de sentir a água salgada a invadir-me o corpo. Lembro-me como ia à procura dos livros que o meu pai tinha comprado para as minhas férias ou os que tinha comprado para ele e que eu lia na mesma. A presença é muito mais apreciada depois de períodos, de preferência curtos, de ausência.
Vem tudo isto a propósito de uma extraordinária notícia para os jovens europeus. Por decisão do Parlamento Europeu, através de um projeto-piloto implementado pela Comissão Europeia, haverá em breve um interrail gratuito para os jovens que façam 18 anos! Imaginem, poder viajar durante um mês de comboio sem pagar qualquer viagem!? Espera-se que sejam abrangidos 20 mil jovens e estão a ser equacionados pagamentos complementares para que aqueles que vivem em ilhas possam viajar de avião até à estação de comboio mais próxima e aí iniciar a sua aventura. Como podem resistir?! É impossível! No Google, ou noutro motor de busca da internet, escrevam “DiscoverEU”, sim, tudo pegado, e investiguem. O hashtag do Twitter é #DiscoverEU. Imaginem o que será sair de Lisboa, ir até Estocolmo, descer até Atenas, passar por Paris e regressar de seguida aos Açores via Porto?
A maior alegria, a seguir à partida e a todas as aventuras que se têm pelo caminho, é a chegada. Voltar a ver a família e os amigos chegados, contar as aventuras que tivemos e tomar conhecimento do que aconteceu na nossa ausência são das melhores sensações que existem. Para termos a alegria de chegar, de encontrar, de abraçar e de festejar, temos que ter a coragem de partir, de ir à descoberta, de nos atrevermos....  Acreditem em mim: atrevam-se a partir!